2. ENTREVISTA 5.12.12

HUGO ACERO VELSQUEZ
''O CRIME EST ORGANIZADO, AS AUTORIDADES NO"

O responsvel por fazer a cidade de Bogot, antigo sinnimo de violncia, virar exemplo mundial em segurana pblica diz que as prefeituras tm de ajudar a combater o crime
por Rachel Costa

 PCC
 Para o socilogo,  mais fcil combater um grupo que controla o trfico sozinho, como ocorre em So Paulo 

O socilogo Hugo Acero Velsquez assumiu em 1997 um desafio arriscado: o de controlar a pasta de segurana de Bogot, capital da Colmbia. Em sua mesa, grficos apontavam um dos mais altos ndices de homicdio das Amricas, com 72 mortes a cada 100 mil habitantes. Para reverter a situao era preciso orquestrar foras dentro do prprio governo e fazer a populao aderir s aes de combate  violncia. E foi com extrema maestria que Velsquez conseguiu cumprir esses objetivos. Quando deixou a pasta, as mortes haviam sido reduzidas em 68% e Bogot se tornado referncia mundial no controle do crime. A experincia valeu a Velsquez convites para atuar em diversas cidades da Colmbia, Equador e Mxico. As colombianas Medelln e Barranquilha e as equatorianas Quito e Guayaquil foram algumas das que tiveram xito seguindo suas ideias. Os bons resultados fizeram do socilogo um dos especialistas em segurana pblica mais importantes da Amrica Latina, atuando como convidado em diversas aes do Programa das Naes Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Atualmente na Amrica Central, ele assessora os governos de Honduras e El Salvador na implementao de planos nacionais de combate  violncia.

"No Rio e em So Paulo, o grande problema  o varejo do trfico. E h uma profuso de crimes e negcios ilegais paralelos" 

"As organizaes criminosas da Amrica Central, as maras, vo disputar espao e tomar o territrio dos cartis mexicanos"

Isto - O sr. se tornou conhecido aps o sucesso do trabalho feito em Bogot. A que atribui o xito dessa experincia? 

Hugo Acero Velsquez - A um conjunto de fatores:  centralizao da liderana e da gesto da segurana na figura do prefeito. Ao trabalho conjunto com o governo federal, a polcia, o Ministrio Pblico, os juzes, o diretor de presdios e as instituies de desenvolvimento social.  criao de uma poltica integral de convivncia e segurana.  participao da comunidade e do setor privado e  avaliao e ao acompanhamento dessas aes por parte das universidades, meios de comunicao, comunidade e setor privado. Um acordo interinstitucional sob a liderana do governante  seja ele o presidente, seja o governador ou o prefeito   fundamental para melhorar a gesto e os resultados na rea de segurana.  

Isto - Quais as peculiaridades do crime organizado no Rio de Janeiro e em So Paulo? 

Hugo Acero Velsquez - So situaes em que o grande problema  o narcotrfico local, tambm chamado de microtrfico ou varejo do trfico. As peculiaridades esto na profuso de negcios ilegais paralelos a essa atividade, como a venda ilegal de armas, o contrabando, as mortes encomendadas, a extorso, o sequestro e o trfico de pessoas. Hoje quase todas as cidades da Amrica Latina esto padecendo desses males, que afetam a vida de todos. 

Isto - A pacificao de favelas no Rio  uma boa estratgia para lidar com esse problema? 

Hugo Acero Velsquez - Sim, mas a ao policial deve estar mais bem integrada  estratgia de se pensar a justia como meio para o desenvolvimento social. Isso implicaria, por exemplo, aes de cunho arquitetnico, com a criao de programas de renovao urbana que promovam a incluso das favelas nas cidades. 

Isto - H exemplos de como a melhoria na segurana ajudou a desenvolver os lugares onde trabalhou? 

Hugo Acero Velsquez - No caso colombiano, nos ltimos anos melhorou a segurana e o pas registrou um de seus perodos mais importantes de crescimento econmico. Aumentou a presena de capital estrangeiro e o desemprego foi reduzido. Estamos agora com a taxa de desemprego em um dgito. H dez anos, o ndice era de cerca de 20%. Se olharmos apenas para Bogot, ela se tornou mais competitiva e atrativa. Inclusive, hoje atrai muito mais turismo que a cidade de Cartagena, um conhecido roteiro turstico colombiano.  

Isto - Ter apenas um grande grupo controlando o trfico, como ocorre em So Paulo com o PCC, torna mais fcil combat-lo? 

Hugo Acero Velsquez - Sem dvida. Mas  preciso tomar decises polticas que envolvem no apenas as autoridades de So Paulo como tambm os governos federal e de outros Estados.  tambm preciso ter em mente que em alguns casos essas decises podem levar a ondas de violncia que faro com que alguns cidados pensem que foi um erro iniciar esse combate. 

Isto - Por que isso acontece? 

Hugo Acero Velsquez - Por um lado, pela reao dos criminosos  ao do Estado. Por outro, pela violncia gerada a partir da priso dos criminosos que ocupam postos de chefia. Surgem confrontos internos para se decidir quem vai ocup-los. Mas, quando os criminosos percebem que no vo conseguir persuadir o Estado e a sociedade, a violncia diminui. Nesse momento, o Estado precisa estar pronto para retomar o controle de territrios antes tomados pela criminalidade, garantindo a segurana e o bem-estar dos cidados.  

Isto - O governo de So Paulo demorou muito para reconhecer a crise de violncia atual. Isso torna sua soluo mais difcil? 

Hugo Acero Velsquez - No tenho acompanhado diretamente a situao de So Paulo, mas no reconhecer um problema apenas torna mais difcil sua soluo. No fim dos anos 1990, no Mxico, as autoridades consideravam que o narcotrfico era um problema dos pases produtores e que o Mxico era passagem para a droga chegar aos EUA. Tive a oportunidade, na poca, de dialogar com funcionrios do governo mexicano e lhes disse que a droga no estava apenas de passagem: ela havia chegado para ficar e, logo, apareceriam cartis no Mxico que tomariam o lugar dos colombianos. Foi exatamente o que ocorreu. O fato de o Mxico no ter reconhecido o problema o tornou mais difcil de enfrentar e a situao, mais violenta. O mesmo hoje  visto na Amrica Central e no tenho dvidas de que, em pouco tempo, as organizaes criminosas centro-americanas, as maras, vo disputar espao e tomar o territrio dos cartis mexicanos.

Isto - Medelln ainda sofre com o crime organizado? 

Hugo Acero Velsquez - Apesar de menos violenta e mais segura, Medelln ainda vai sofrer por anos com o crime organizado que est instalado na cidade h mais de 40 anos.  possvel encontrar vrias geraes de uma mesma famlia ligadas ao narcotrfico e a outras atividades do crime organizado, como o contrabando e o comrcio ilegal de armas. Isso torna o problema mais complexo e exige tempo para se mudar essa cultura. Temos bons resultados nos ltimos oito anos, iniciados com Sergio Fajardo (prefeito na gesto 2004-2008). Mas sero precisos ao menos outros quatro governos, ou seja, 16 anos, para que o crime organizado no seja uma alternativa de ascenso social para algumas camadas da populao. 

Isto - 
No Brasil, a polcia est sob o comando do governo estadual. Na Colmbia, sob controle do prefeito. Esse segundo modelo  mais adequado? 

Hugo Acero Velsquez - O Brasil precisa responsabilizar mais os prefeitos em relao s questes de segurana, ainda que o comando das corporaes policiais no seja realizado em mbito municipal. As cidades so o cenrio privilegiado para a gesto da segurana.  na rua, no parque, onde acontecem a violncia e a delinquncia. E so os prefeitos que devem conhecer as cidades. O governador, por mais bem-intencionado que seja, no pode estar presente em todos os municpios do Estado. 

Isto - O fato de haver duas polcias, a militar e a civil, pode levar a uma justaposio de papis?  

Hugo Acero Velsquez - O problema  a falta de deciso poltica. Enquanto os delinquentes esto organizados, as autoridades esto cada uma de um lado. A Polcia Federal no trabalha em conjunto com a Polcia Militar, nem com a investigativa e muito menos com o Ministrio Pblico. Cada instituio atua isoladamente. Sem uma aproximao dessas autoridades, dos governos, das prefeituras e das instituies de desenvolvimento social  muito complicado obter resultados e mais difcil mant-los. 

Isto - Por que o sr. afirma que o modelo baseado em polcia, justia e crcere no resolve o problema da segurana? 

Hugo Acero Velsquez - A segurana vai muito alm de policiais, juzes e presdios. Nas reas por onde o crime e a violncia se espalham h mais do que criminosos, quadrilhas, venda de droga, violncia, extorso e delitos. H crianas e adolescentes fora da escola e em risco de serem recrutados pelo crime. H parques abandonados, h ruas sem iluminao e sem lixeiras. H falta de servios pblicos. Esses problemas no so resolvidos nem pela polcia, nem pelos juzes, nem pelos presdios. So questes que devem ser respondidas pelos rgos de desenvolvimento social em um trabalho conjunto com as equipes de segurana e justia.

Isto - Por que temos presenciado essa rpida expanso do crime organizado na Amrica Latina?  

Hugo Acero Velsquez - O aumento atual se deve em grande parte  expanso na exportao das drogas, principalmente da cocana, ocorrida depois da interdio direta dos Estados Unidos nas regies produtoras, em especial Colmbia, Peru e Bolvia. Isso fez com que os cartis desses pases buscassem parceiros para ajudar a levar a droga at o territrio americano e europeu por meio das fronteiras, portos e aeroportos do Mxico, Venezuela, Brasil, Equador, dos pases da Amrica Central e de tantos outros. Logo parte dessa droga comeou a ficar nesses pases como pagamento, destinada ao consumo interno, que nunca deixou de crescer. As drogas no esto s de passagem por esses pases. Elas chegaram para ficar e para enriquecer os grupos criminosos locais.

Isto -As estratgias dos governos de combate ao narcotrfico esto equivocadas? 

Hugo Acero Velsquez - No  apenas isso. Os pases americanos nunca tinham enfrentado organizaes criminosas to organizadas e com tanto poder de violncia e de corrupo como as de hoje. So grupos fortes, cujo poder lhes  garantido pela quantidade de dinheiro que possuem e pela variedade e rentabilidade dos negcios que controlam. Alm de no haver coordenao dos governos e cooperao internacional para enfrentar o crime organizado, o trabalho realizado por cada um dentro de seu territrio est equivocado. As aes esto concentradas apenas no combate ao narcotrfico, sem levar em conta outras atividades criminosas igualmente rentveis e violentas e que ocorrem em conjunto, como o trfico de pessoas, o comrcio ilegal de armas, o contrabando e o comrcio de rgos. Agir sem levar esses problemas em conta limita os resultados obtidos, tornando-os ineficazes na desativao das organizaes do crime organizado. 

Isto - Violncia  sinal de falncia das polticas sociais? 

Hugo Acero Velsquez - No. A violncia sinaliza para a falncia dos planos, programas e projetos de preveno  violncia e ao crime. Existem muitas comunidades pobres no mundo nas quais os nveis de violncia so muito baixos, como  o caso do Cairo, onde a taxa de homicdios no chega a um por cada 100 mil habitantes.

